quinta-feira, 22 de junho de 2017

Desabafo

Estava no metrô e vi uma menina lendo um livro com um nome bem sugestivo, intitulado na tradução brasileira de 'Outros Jeitos de Usar a Boca'. Tentei memorizar o nome da capa durante todo trajeto de casa e logo que cheguei fui pesquisar do que se tratava. Achei um artigo bem bacana da revista Superinteressante. Como imaginei, o titulo original não tem nada a ver com a adaptação, em inglês chama 'Milk and honey' (leite e mel) e se trata de poemas escritos e ilustrados pela indiana Rupi Kaur.

Os poemas são bem empoderados, falam de dor, perda, abuso e amor próprio.

Ainda não li a obra, mas achei um poema bem bacana e que diz algo que muitas mulheres conhecem. Escolhi ele porque já julguei outras mulheres pela aparência, pelo comportamento e pelas roupas escolhidas. Escolhi ele porque reflete um pensamento machista que vem tanto do feminino como do masculino. Escolhi porque também fui julgada, talvez nem pela beleza, mas pela falta de uma estereotipada, ou por outros requisitos que eu tenha. Escolhi ele porque me fez desabafar .

'Quero pedir desculpas a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te acha bonita
mas porque você é muito mais do que isso'

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Laerte de ser mulher

Conversei com (A) cartunista e ativista Laerte Coutinho em 2014 para um projeto de entrevistas com pessoas influentes que a Elemdia (empresa de Out Of Home, ou conhecida como `telinhas de elevador') estava começando, chamado de `SpeedReading`.
De lá para cá muita coisa mudou, algumas perguntas refletem aquele período, outras tenho certeza que para a cartunista são atemporais. O cenário político não é  o mesmo , teve Copa do Mundo e a gente perdeu em todos os sentidos, assim como na Olimpíada e Paraolimpíada também. E gastos, muitos gastos. Obras superfaturadas, estádios sem uso, Estado declarando falência e aquilo tudo que já sabíamos, infelizmente .  
 
Escolhi a Laerte como personagem porque tinha curiosidade sobre o travestimento dela, que anos se identificava como ele. Houve um fato que chamou atenção também, a questão do banheiro de gênero. Em 2012, dois anos depois de se assumir como transexual,  Laerte foi vitima desse `bigenerismo` quando tentou usar o sanitário feminino em um estabelecimento de São Paulo .
 

A entrevista foi realizada em abril daquele ano, ela foi no prédio onde ficava a Elemidia com uma regatinha azul, cor que faz parte do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, data da nossa conversa. Eu estava receosa em cometer alguma gafe no meu tratamento, mas na primeira olhada entendi que nem precisava me preocupar. Laerte estava de saia jeans, maquiagem e unhas pintadas. Elegante, Laerte se apresentou. Na primeira olhada eu já tinha percebido que Laerte não era mais O, Laerte era A.



Você disse em entrevista (Folha) que o termo crossdressing serviu para te ajudar a  se assumir, mas que mais tarde você percebeu que esse termo te diferenciava da classe dos travestis, Qual a diferença?

Crossdresser é um termo que vem dos EUA e servia para caracterizar, principalmente, homens que usavam essa linguagem de travestimento para expressar sua transgeneridade. Era uma maneira de deixarem notória sua heterossexualidade. Como orientação sexual e identidade de gênero  são coisas independentes, embora se flexione, lógico, esse grupo americano queria deixar claro essa diferença, inclusive existem grupos que proíbem a entrada de homos. Quando esse termo veio para o Brasil, ele serviu mais para uma distinção social, porque a travesti é uma pessoa transgênera pública muito marcada como alguém no mercado da prostituição, então as pessoas de classe média que quiseram se expressar  preferiram adotar esse termo para manter certa distância. É uma distinção preconceituosa, baseada num preconceito social do Brasil. Dentro do grupo das crossdressing existem todas as orientações sexuais, assim como em qualquer lugar.

Como você se define agora: crossdressing, travesti ou mulher?

Eu me defino cada vez menos (risos). Quanto mais a gente faz questão dessas coordenadas mais distantes ficamos da realidade. Eu me acho uma mulher trans e uma mulher trans é uma pessoa que se sente mulher, mesmo tendo um pau.  É uma pessoa que se entende mulher e ocupa socialmente o lugar de uma mulher dentro dos parâmetros que nossa cultura oferece.

Quem veio primeiro:  o Hugo que se travestiu ou a Laerte que virou mulher? Quem inspirou o que?

Ao contrário do ovo e da galinha (risos), quem veio primeiro foi o Hugo.  

Laerte em 120 caracteres ou em uma frase?

Sou péssima nessas sínteses, eu dou muita volta. Nenhuma das coisas que formulo me parece sintética. Mas às vezes eu chego a sínteses muito boas, até pelo meu trabalho de cartunista que favorece a construção de linguagens objetivas e acaba exigindo isso.

Tipo sua última charge, que uniu dois assuntos que estão em alta?

Exatamente. Esse tipo de coisa eu jamais conseguia formular (risos). Me surpreendi também (risos)
Quanto tempo demora para criar uma tirinha?

Depende muito. Tem muitas variáveis, fazer desenho em si não é tão demorado. Mas nunca é só o desenho, é o que veio antes do desenho. Tudo faz parte, desde estudos com livros até os porres que tomei na vida  (risos).

Por que demorou tanto para se assumir e em que momento você percebeu que já estava na hora?

Eu penso muito sobre isso e acho que eu poderia até ter continuado minha vidinha sem ter tido essa percepção, e se não tivesse quase por acaso aberto essa porta, que na verdade foi aberta por outras pessoas, eu provavelmente estaria levando a vida que levava, mas muito mais infeliz. Se existe alguma coisa que passou dentro de mim e é evidente é um estado de satisfação enorme e isso não acontece assim por mágica ou por voluntarismo nem por nada, é quando você pega na veia mesmo. Eu já sabia que tinha componentes na minha sexualidade claramente homossexuais, nunca tinha chegado à expressão de gênero e ao fazer isso me vi fazendo uma descoberta. Era isso que eu queria fazer. Antes eu estava em uma vivência frustrada, obscura e clandestina, até para mim (risos).

Sexualidade, como assim?

Eu comecei minha vida sexual com homens e teve um momento que eu entrei em pânico com essa ideia. Coloquei tudo dentro do armário e passei a viver como heterossexual na boa. Casei três vezes, tive filhos e segui a vida.

Por que demorou tanto tempo para sair do armário? Teve medo de preconceito?

Sim, eu tinha medo de preconceito. A ideia poderosa de que a vivência da homossexualidade era um desvio, algo visto como anormal fez com que eu me escondesse.

Você passou por algum tipo de “opressão”, mesmo que sem querer na sua infância e adolescência?

Provavelmente teve. Eu era da geração dos Beatles e tinha aquela moda de ser cabeludo, eu queria deixar meu cabelo crescer e durante um tempo foi vetado isso para mim. Eu nunca fui um adolescente rebelde, sempre obedecia e me submetia. Minha família era bem liberal, mas tínhamos muito claro o que era ser homem e mulher e que essas coisas não podiam se cruzar.

Como você define esse estado de felicidade?

Um encontro de alguma coisa que eu nem sabia que estava procurando.  Acho que tem várias loucuras que fazemos na vida e que não temos muito claro o motivo. Muitas vezes é o encontro de algo que está procurando que te trás à evidência. O que aconteceu comigo foi o oposto do que acontece com a maioria das trans que conheço.

Reparei que você faz unha e depilação?

A manicure faz minhas unhas. Depilação eu mesma faço atualmente, se eu não estiver com algum problema na coluna (risos). Mas é bem mais confortável fazer com outra pessoa. Eu fiz depilação a lazer para tirar os fios pretos da cara, mas tenho que fazer a barba todo dia.

Acompanha tendência da moda?

Eu dificilmente sigo moda

Pegou alguma mania de sua mãe para se vestir?

Sim, inclusive roupas dela. Minha mãe se maquia muito pouco, eu raramente a via produzida. Para se ter uma ideia, ela só furou a orelha adulta e madura por causa de uma namorada minha que tinha uns brincos legais. Minha mãe considera o modo masculino bem prático e ela viveu um pouco isso. Eu acho encantador esse mundo cosmético e não vejo sentido em distinguir o prático do feminino. Eu estou construindo o caminho próprio dentro de uma trilha reconhecidamente feminina.

Você tinha algum preconceito ou pensamento machista que foi quebrado quando você se assumiu?

Bastante, mas não exatamente por causa desse movimento. Já tive bastantes pensamentos e ações machistas e homofóbicas no decorrer da minha vida. Eu vim fazendo críticas e correções dessas coisas. O fato estar frequentando a área cultural feminina não me fez mudar muito o jeito que pensava e não me trouxe tanto a mais do que eu já tinha. Quando houve aquela questão do banheiro, eu fiquei pensando nisso, como diz a Beatriz B: “o banheiro é uma área de produção de gênero, não é um território livre de segurança para as mulheres”. O que está se produzindo com isso é o bigenerismo.

Mas você não acha que as separações de banheiro são feitas para evitar certos casos de assédio?

O assédio é resultado desse bigenerismo. O machismo e muitas outras coisas estão conectados a essa lógica da opressão. Essa opressão se dá porque está se concebendo a humanidade em blocos diferentes, onde um manda no outro. Essa concepção machista é a mesma da homofobia e a do estupro, é o que orienta todos esses tipos de barbaridades que vemos contra mulher e o ser-humano. Os  homens deveriam todos se indignar com a quantidade de estupros que acontecem  ao invés de se preocuparem com certas questões de moral. Cada mulher violentada, cada gay e trans atacados é ataque à civilização e a nossa cultura.

No começo você se travestia como ato político para ser aceito mais rápido?

Não. Eu me vestia para eu mesma. No começo usava roupas mais modestas, como uma senhorinha (risos). Era medo, eu comecei com uma timidez grande. Uma senhora tímida mesmo, cheia de dúvidas sobre minha idade, sobre usar saia curta etc. Aos poucos fui descobrindo algumas possibilidades e como fazer algumas audácias. Tudo isso em busca do clímax da minha expressão.

Você sente falta de algum comportamento que tinha como homem, como andar de perna aberta ou coçar o saco?

Não sinto. Eu nunca fui um grande coçador de saco, eu já tive modos claramente masculinos como sentar de perna aberta. Aliás, mulheres fazem isso também quando estão de calça. A experiência de se vestir como mulher me tem colocado de frente a essas questões. Estando de saia eu não sentaria de perna aberta, tem que ter um certo censo de conveniência. Eu gosto de sair de sainha com as minhas perninhas depiladas, porque tem travesti que não se depila. As pessoas estão aprendendo a ficar cada vez mais a vontade dentro do cardápio das possibilidades de gêneros e eu acho isso ótimo, até o ponto da agente não poder mais distinguir o que é homem e do que é mulher.

A Laerte de agora namoraria o Laerte do passado?

Não, jamais me pegaria (risos).

Você teve uma aceitação boa, mas se fosse com outro tipo de personalidade, jogador de futebol, por exemplo, você acha que seria tão respeitada?

Eu tive uma aceitação muito boa mesmo, acho que ser artista me ajudou, mas ao mesmo tempo  esta foi uma circunstância que me impediu durante toda a vida de assumir minha sexualidade, as porradas que não tomei quando assumi são reflexo do que passei. Não tem como comparar, ainda mais em uma área esportiva que provoca outras discussões. As federações em geral nem pensam nesse assunto,  uma das poucas que tem essa política é fora do Brasil. Cada área tem suas implicações, agora a torcida do Corinthians tem uma torcida gay e isso mostra que as coisas estão acontecendo para ter aceitação, o mundo não está parado e é legal isso.

Como surgiu a ideia de criar a ABRAT (Associação Brasileira de Transgêneras)?

É uma reunião de pessoas interessadas em manter um padrão de discussão sobre transgeneridade fora do contexto dos crossdressers. Queremos discutir políticas para esse grupo desde empregos, leis etc. Nós estamos em momento de construção institucional.

Quais foram as conquistas de vocês até o momento?

Todos os dias temos uma conquista (risos).  Não são conquistas da ABRAT, são vitórias do movimento. Tem a formulação da lei João Nery, projeto do Jean Willys, que propõe algo muito próximo da leis argentinas, que é considerada mais avançada do mundo  quando se trata de legislação para trans. A Márcia Rocha, minha companheira de ABRAT criou uma agência de empregos para trans. Estamos  indo ao encontro com empresas que têm interesse em dar abertura, governo que está interessado que essa abertura exista e as trans que não conseguem e querem arrumar emprego.

Por que a classe das travestis é tão mal vista pela sociedade?

Machismo. É considerado uma vergonha o homem se relacionar com homem, um homem não ser um homem. Mas ao mesmo tempo é irresistível porque as travesti são sempre procuradas.

A cirurgia de troca de sexo é segura?

Razoavelmente segura, mas nem todas as travestis querem trocar de sexo. Hoje em dia todas as cirurgias são  feitas pelo SUS.

Você pretende fazer?

Não, mas tem muitas outras instâncias de intervenções cirúrgicas que podem ser feitas.  Eu vou colocar prótese nos seios, é um processo razoavelmente seguro, mas estou adiando um pouco por causa dos meus trabalhos. Tenho uma exposição em setembro.

A parte mais difícil de ser mulher?

Nenhuma. Eu adoro andar de salto por exemplo. Acho que o mais difícil agora é deixar de ser mulher (risos) e não quero fazer isso.

Como você se imagina daqui uns anos?

Pois é, eu já estou nesse daqui uns anos (risos).  Não sei dizer, a vida é um processo louco e eu nunca consegui  fazer previsões e nem planejamento de médio prazo. Eu estou satisfeita com o que está acontecendo agora e com o rumo que as coisas estão. Não quer dizer que esteja feliz  e nem que eu não tenha dificuldades, porque tenho sim com o meu trabalho, com ser mulher e com outras coisas.

Pretende se casar novamente e ter filhos?

Acho que não.

Você já é avó? Como lidar com as futuras dúvidas do seu neto?

Sou ele me chama no masculino mesmo. Mas ele não vai precisar ter dúvidas porque ele vai crescer cm algo que já faz parte do mundo dele . As dúvidas surgem se você mostrar elas.

Qual a maior dificuldade na hora de uma mulher trans arrumar um emprego? O que falta para as empresas se conscientizarem?

Não é só pela empresa, é também uma dificuldade da própria pessoa que sabe que vai encontrar problemas e ao mesmo tempo ela tem outra possibilidade que é a prostituição, que é um mercado informal onde muitas vezes se ganha mais.

Você é bem ativista nas rede sociais em relação a outros países que não aceitam a homossexualidade

Ter virado uma ativista depois que me assumi foi uma consequência que não esperava, na verdade eu sempre fui ativista de alguma coisa. Eu era comunista no passado e meu trabalho como cartunista também me possibilitou nessa parte. De alguma forma, eu sempre tive meu braço partidário. A questão da Rússia, por exemplo, interessa o Brasil porque o Putin tem  ideias semelhantes da direita do nosso país, de que ser gay é coisa que você tem que fazer escondido dos outros e pode ser um mau exemplo para as crianças.

Você já fez três coberturas de copas do mundo (78, 82,86), o Brasil está preparado para receber um evento desse quanto problema de infraestrutura?

Eu não entendo muito disso, a principio eu acho que não deveria fazer nada, já tem estádios no Brasil.

O banheiro deveria ser unissex?

Deveria ter banheiro unissex em todos os lugares


As novas tecnologias atrapalham, ajudam ou complementam o trabalho do cartunista?


Ajudam a construir. Me possibilitaram o mundo da cor, eu tinha dificuldade de lidar com lápis e tinta. O Photoshop abriu uma quantidade de possibilidades muito boa.

A população tem o acesso que deveria  aos cartoons? Elas entendem a mensagem?

Isso  de não entender tem em qualquer linguagem. Quando falamos de cartunista não estamos falando de um tipo de produção só, mas de diversas formas de fazer cartoons. Dentro desse universo, até mesmo na Folha, existem jeitos diferentes têm leitores que não entendem mesmo.  Os cartunistas que recebem mais cartas de leitores que não compreendem os quadrinhos são eu e o Angeli (risos). Ás  vezes eu respondo, porque eu acho que eles merecem uma resposta.

O que você acha do grupo Procure Saber? Você acha que eles têm um pouco de razão?

Não acho, eu discordo da tese de controle. A não ser a parte de dados particulares que você abre ou não abre, mas a parte da sua vida que é pública ok, não precisa de autorização. Eu confesso que não estou muito á par de como esse assunto caminhou.

Você acha que o Brasil deveria legalizar a maconha? Por quê?

Eu acho que não deve ser considerado crime, deve ser  igual ao cigarro e álcool.  Essas substâncias devem estar de alguma forma assumidas claramente pela sociedade.

Em 2012 você teve sua residência invadida e sua coleção furtada, o que falta para a nossa segurança melhorar?

Essa discussão de como controlar isso tem haver também com a polícia e as diversas formas de controle social, não adianta só  resumir a coisa no pensamento fascistoíde de colocar a Rota na rua e atirar. Todas  as questões tem que ser analisadas conjuntamente, não adianta focar em uma coisa só, como reduzir a maioridade penal para diminuir a criminalidade, não vai acontecer. Vai aumentar a presença de gente com poucos crimes irrisórios dentro de um sistema prisional que está lotado.  Acho que tem que ter uma forma racional para lidar e discutir esses problemas.

Redução da maioridade penal, contra ou a favor?

Totalmente contra. A redução de maioridade penal é uma forma da sociedade se desfazer dos problemas dos menores, é mais uma forma da sociedade  virar as costas para  direitos civis. A população de jovens e crianças têm direitos e eles jamais foram assegurados. Esse é mais uma questão que está sendo jogada de lado.

Você está gostando da gestão do Haddad? O que falta melhorar?

Eu gosto do governo dele de modo geral. O que ele fez na cracolândia eu achei correto, esse tipo de conduta da Operação Braços Abertos, eu aprovo.

Você está gostando da gestão do Geraldo? Sistema Cantareira?

Eu acho meio desastroso a gestão dele.  Os dados que tenho acesso sobre a gestão me fizeram pensar assim. A gestão do PSDB  precisa sair de campo. O Trágico da crise no sistema Cantareira é que trata de resultados de processos antigos, é um resultado de um descaso que vem de antes, assim como o metrô. É ridículo São Paulo ter essa quantidade de km de metrô para a população que temos.

Semana passada o IPEA divulgou um estudo feito com a população e o resultado mostrou um machismo grande da nossa sociedade em vários sentidos. A maioria dos entrevistados eram do sexo feminino, por que existem mulheres tão machistas?

Esses dados que percorrem a sociedade e que a gente acaba caracterizando como machismo, eles são espalhados mesmos, eles não são  de homens machos nascidos com  genitália masculina, eles são disseminados e partilhados também por mulheres. Diferente do que conhecemos por feminismo, que é um movimento consciente com mobilização. É meio chocante ver isso porque  machismo é um item cultural, é um dado de opressão, não só para as mulheres como a comunidade GLBT, o machismo é um sinal de atraso cultural muito grande. Agora essa pesquisa foi mal divulgada eu acho.É uma  frase que foi posta com respostas a partir do nível de concordância, a  leitura desse tipo de pesquisa precisa passar por um filtro antes de ser divulgada porque não é verdade essa constatação, pode ser até pior (risos). Mesmo que seja uma pesquisa feita em 2013, é errado divulgar ela assim como foi feita, esse tipo de formulário de pesquisa existe, corresponde a um linhas de abordagem sociológica, mas não da para fazer a transferência direta da informação, por exemplo, uma das perguntas era assim: briga de marido e mulher não se mete a colher, mas de que tipos de briga estão falando? Não é uma coisa muito simples de se ir passando. Eu acho que o Brasil é um país onde o machismo tem grande expressão e que envolve também mulheres, porque é uma expressão do conservadorismo dentro da vivência dos gêneros. A questão é verificar a existência dele.

Apesar das mudança, nessa mesma pesquisa foi revelado que 48% dos entrevistados não gostam de ver beijo gay. O brasileiro continua homofóbico?

Apesar de algumas evoluções, o brasileiro continua homofóbico sim.  Pesquisas como estas revelam algumas coisas pontuais e a divulgação dela acontece de maneira deformada, mas saber ao certo quanto evoluiu e o quanto estamos atrasados nesse conceito não tem como saber. No fundo nós vamos nos guiando pela nossa intuição, pelas redes sociais (Facebook) e amigos que falam sobre esses ataques que acontecem.

Estamos na semana dos 50 anos do golpe de 64 e tem pessoas que ainda querem uma intervenção militar. Você que viveu um pouco essa época, o que diria a essas pessoas?

Eu era adolescente nessa época e as pessoas que querem essa intervenção não viveram esse período. Essa é a expressão do fascismo brasileiro. A direita brasileira se expressa desse jeito, eles não estão se referindo ao movimento da ditadura especificamente, eles querem é derrubar a Dilma e o PT.  Chamar os militares é uma bravata, nem militar quer fazer isso mais e se isso acontecer os militares vão fingir que não estão. Eles aproveitaram o aniversário de 50 anos para expressar um ponto de vista de direita, que é uma forma publicitária também . Agora essa discussão tem reflexo no que a sociedade está falando e que é necessário sobre segurança e policiamento, a desnaturalização da polícia.

O que te vem na cabeça:

Jair Bolsonaro?

Eu não quero falar. Eu acho que o diálogos entre as forças políticas que estão se expressando tem que existir, não tem nada contra o debate de ideias. Não tem o que se conversar com ele. Tinha o que se conversar com o Feliciano, pela posição que ele estava ocupando e era preciso estabelecer diálogo com ele.Vários momentos houve essa conversa, mas sem muito resultado, diferente do que aconteceu com o Jair.

Dilma e a crise da Petrobras?

Eu gosto do governo dela. Eu acho que essa crise está um pouco explorada demais pela imprensa, um pouco mal contada essa história.

Marco Feliciano?

Ele é meio movido a escândalos. A carreira política dele não é absolutamente nada expressiva e como ele não tem o menor significado do ponto de vista de construção ideológica de qualquer coisa útil, ele procura se construir nesse escândalo. Que é uma área de tensão muito grande na sociedade brasileira hoje, as questões morais e a religiosidade do povo. Não só ele como outros autodenominados representantes de deus procuram lucrar tanto em termos de grana como em termos poder, presença de mídia, avanços na área de votos e tudo isso quer dizer poder de negociação. É uma área que não propõe nada do ponto de vista político, de organização sócio- econômica. O embate deles têm se dado na área moral, não quer dizer que eles não fazem nada na área sócio- econômica, eles fazem acertos e acordos mais espúrios que se imagina, mas o ponto programático deles é zero. 

Jean Wyllys?

Estou bem representado, ele é uma grande pessoa e um bom parlamentar.

Comissão da Verdade?

Fazendo seu trabalho, lamento que seja um pouco limitada, mas dentro dessas limitações a comissão está sendo eficiente.

Comissão de Direitos Humanos e Minorias?

Agora voltou para o convívio da civilização, podemos voltar a usá-la (risos).

Glauco?

Um amigo fantástico e uma pessoa fantástica também, criou momentos de cartoons e histórias bem luminosos. Eu sinto ele de vez em quando, lembro muito dele.

TV Colosso?

Um trabalho que gostei muito de fazer e acho que poderia ter ficado melhor do ficou. O projeto inicial era para ser dentro de produção de séries, consagrados pelos americanos, e não foi feito assim. O primeiro programa foi ao ar duas horas depois de acabar de ser feito e trabalhar nesse esquema era bem desgastante para todos.